Renato Ochman: o novo, já dizia Belchior, sempre vem

O advogado Renato Ochman faz uma releitura de Belchior em tempos de Covid-19

Crédito: Marina Leme

Por Renato Ochman*

Há muitas coisas que nos marcam pela vida toda e nos acompanham, agregando sentidos ou permanecendo fiéis ao instante por anos ou décadas. Dessas, a música é a mais forte, desafiando inclusive cérebros deteriorados por Alzheimer. Pessoas que esquecem o próprio nome lembram com facilidade de acordes que penetraram no seu lobo frontal e não se deixam destruir facilmente. Esses tempos pandêmicos têm nos deixados mais reflexivos. Eu nunca li um livro do americano Edgar W. Howe, sequer o conhecia, mas ele disse algo que concordo e classifiquei como uma pérola escondida: “Quando se tem música boa, fica-se com saudade de algo que nunca se teve e nunca se terá”. A música tem esse poder, é uma espécie de decifrador dos nossos desejos, desde os primeiros que acessamos na juventude, que nos tira da racionalidade excessiva. Quem já não se pegou distraído cantarolando uma música de fundo? Às vezes, até gesticulando, sentindo-se num palco. E a viagem de lembranças que isso causa? Uma espécie de caleidoscópio de sensações, memórias, sonhos, sentimentos.

Já fui um jovem contestador, creio que nem me despedi completamente da juventude, porque ainda insisto em brigar pelo que acredito, mas uma música que marcou a minha geração voltou com tudo no meu consciente fechado em casa, com minha família. Eu que já quis ir tão distante do lar, construir um mundo diferente, me peguei tentando imitar Elis Regina quase gritando “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, ou então “você pode até dizer que eu tô por fora, ou então que tô inventando, mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”.

Tem sido tempos de insegurança, de questionamento, de dor, perdemos pessoas queridas, alguns sequer puderam se despedir. É comum ler que os adolescentes estão sofrendo, tento apoiar os que tenho em casa, tento resgatar o jovem contestador que fui e colocar para todos esse contraditório da vida, tão bem captado por Belchior. “Como Nossos Pais” virou um clássico da música brasileira, uma canção que é também cantada por jovens como uma espécie de preparação para esse decorrente mudar de lado, um ensaio para aceitar e entender o passar do tempo, fazer as pazes com as origens e usá-las como base, como um agregador.

O inimigo era outro, confio que já evoluímos e iremos vencer esse de agora, mas ainda há muito a evoluir, nossos pais poderiam ter vivido melhor se esse país já fosse mais justo. Que o conflito de gerações, que a leitura otimista da música permite ver como suplantado, sirva de estímulo para que consigamos, respeitando as diferenças, criar um novo espaço de diálogo, garantindo no mínimo o básico a muitos. Que cada brasileiro que superou esses tempos de Covid-19 tenha condições de encontrar nesse “novo que sempre vem”, uma vida digna, histórias com significado e a possibilidade de olhar com orgulho pela parede da memória.

 

*Renato Ochman é advogado, mestre em Direito Societário e autor do livro Vivendo a Negociação