FINANÇAS REAIS PARA PESSOAS REAIS

Fenômeno na internet com linguagem acessível e descomplicada, a influenciadora Nathália Rodrigues, a Nath Finanças, critica a “culpabilização do pobre” feita pelo economês tradicional e planeja criar um instituto para levar educação financeira para crianças em escolas públicas

Nath Finanças || Crédito: Pedro Campos

Por Nivaldo Souza

Nathália Rodrigues tem apenas 23 anos e já é uma das vozes de maior credibilidade na internet para quem busca uma relação saudável com o dinheiro. Com o seu canal no YouTube, Nath Finanças, ensina finanças pessoais para quem está com a corda no pescoço – ela ainda cursava a faculdade de administração quando viu nas aulas sobre o tema um conhecimento necessário a uma população marginalizada do planejamento financeiro. A linguagem simples e os exemplos da vida real a fizeram atingir mais de 1,3 milhão de seguidores nas redes sociais.

Na pandemia, Nath arriscou ir na contramão de influenciadores famosos por estimular investimentos em renda variável. “Tinha muita propaganda dizendo que era hora de investir na bolsa. Eu não foquei nisso. O meu público precisava do auxílio emergencial, do Bolsa Família, saber como abrir uma conta bancária. Foi ali que eu cresci muito”, conta em entrevista a PODER.

A visão destoante do discurso liberal dominante no mercado financeiro levou Nath a ser escolhida no ano passado como a única brasileira entre os 50 maiores líderes mundiais da influente lista da revista Fortune.

A fluminense de São Gonçalo concluiu a faculdade, lançou um livro, criou um podcast, tornou-se empresária. Ela emprega 12 funcionários, faturou mais de R$ 2 milhões no ano passado e, agora, se prepara para abrir seu próprio escritório. A escolha do endereço não foi por acaso. “Trazer um escritório para a Baixada, próximo de onde eu vivo e contratar pessoas daqui, é uma forma de potência. É ver que tem muito talento por aqui e não precisa estar no centro do Rio ou na zona sul para conseguir mostrar esse talento”, afirma.

PODER: ADMINISTRADORA, ESPECIALISTA EM FINANÇAS, ESCRITORA, EMPRESÁRIA, PODCASTER E YOUTUBER. QUAL O SEGREDO PARA ALCANÇAR ISSO TUDO COM APENAS 23 ANOS?

NATÁLIA RODRIGUES: Confesso que é muita responsabilidade, porque tenho uma equipe de 12 pessoas que trabalha e faz conteúdo 100% gratuito na internet. A única coisa monetizada é o livro Orçamento Sem Falhas (ed. Intrínseca). Escolhi finanças porque estava vivendo para pagar cartão de crédito. Trabalhava numa loja de calçados e ficava nesse ciclo vicioso de receber o salário e ir direto pagar a fatura. Criei o canal já pensando em uma estrutura de empresa. Escrevi o projeto no papel, defini o público-alvo, mas não pensei na monetização. A ideia era compartilhar o que eu estava aprendendo como estudante. Só fui pensar como empresa no fim de 2019, quando começaram a surgir marcas, publicidades e pessoas querendo fechar trabalhos. Contratei um editor de vídeo, porque eu editava de madrugada depois da faculdade, e conforme foram surgindo mais demandas fui contratando mais gente. Em 2020 cresci bastante e pensei a virada de chave como empreendedora quando comecei a observar que podemos fechar trabalhos legais com empresas que a gente acredita. Estamos com novas formas de fazer um grupo de estudo e trazer mais um livro, várias outras formas de crescer a empresa.

PODER: QUAL A SUA MAIOR CONQUISTA COMO EMPRESÁRIA?

NR: O escritório que vou abrir este semestre em Nova Iguaçu é uma das minhas maiores conquistas. Eu gravava na casa da minha mãe, com um pano atrás, um celular bem velhinho e um tripé antigo comprado na Feirinha da Pavuna. Ter um escritório com estrutura é muita emoção. Vão ser dois ambientes, com sala para gravar e dar consultoria. Outra grande conquista é poder aposentar a minha mãe. Ela é minha assessora pessoal, cuida da minha agenda, e eu consegui montar o plano de aposentadoria. Ela gosta de trabalhar, não consegue ficar parada, mas já falou que este ano vai fazer 50 e quer descansar. Vai ser ótimo, ela abriu mão de muita coisa para eu ter o que tenho hoje.

PODER: NOVA IGUAÇU É FORA DO REDUTO FINANCEIRO DO RIO, POR QUE O ESCRITÓRIO LÁ?

NR: Sei o quanto a Baixada Fluminense é potente. Quem mora na Baixada geralmente trabalha longe dela, pega um trem, três ou quatro conduções para chegar no emprego. Vou contratar pessoas daqui que chegarão em 20 ou 30 minutos. Trabalhar em escritório, em área financeira, era só no centro do Rio e muitas vezes quem mora na Baixada tem que colocar o endereço de um amigou ou parente para conseguir participar do processo seletivo. Nós temos as portas fechadas antes de participar da entrevista. Trazer um escritório para a Baixada, próximo de onde vivo, e contratar pessoas daqui, é uma forma de potência.

PODER: QUAL O SEU PROPÓSITO COMO EMPRESÁRIA?

NR: É algo que já estou conseguindo, que é ajudar o máximo de pessoas a sair do vermelho, a conseguir ter uma grana para fazer uma reserva de emergência. Um dos objetivos como Nath Finanças é fazê-las entender de finanças, inflação, Selic [taxa básica de juros]. Mais para frente quero criar um instituto para ajudar as pessoas e também ir às escolas públicas levar conteúdo gratuito de educação financeira para crianças. Esse é um grande objetivo: não falar só com adultos. As pessoas começam a entender de finanças quando já estão endividadas, com o nome sujo. Não tem que ser assim. Tem de ser desde pequeno para que a gente não passe tantos perrengues.

PODER: SOFREU PRECONCEITO POR SER UMA MULHER NEGRA FALANDO DE ECONOMIA?

NR: Essa é a realidade quando você entra num mercado dominado por homens brancos. O número de mulheres na bolsa de valores não se compara ao de homens [o número de mulheres cadastradas na B3 atingiu a marca de 1,15 milhão em 2021; os homens somam 3,8 milhões, cerca de 60% dos CPFs registrados]. Há o estereótipo de que mulheres não sabem guardar dinheiro, que gostam de comprar bolsas e futilidades. Mas estamos construindo [uma nova história], principalmente com mulheres negras entrando na faculdade. A gente está sempre quebrando portas. Quando entrei no mundo das finanças, recebi comentários dizendo que mulher não sabe de economia, que eu não deveria estar falando sobre isso. Tenho certeza de que se fosse um homem branco que tivesse criado o que eu criei iam falar que é um gênio. O peso é diferente quando é uma mulher e dizer isso não é vitimização. É fato. O mercado vê as mulheres como gastadeiras e os homens como investidores. O meu público é 80% feminino, principalmente no Instagram. São mulheres que se identificam com minha linguagem e a forma como me comunico. Mas não quero ser conhecida como Nath Finanças mulher negra periférica. Quero ser conhecida pela minha competência, não pelas minhas dores.

PODER: POR QUE O ECONOMÊS TRADICIONAL NÃO COMUNICA?

NR: O que me incomodava eram homens brancos engravatados falando como guardar mil reais, que você é culpado por não ganhar o suficiente, que está endividado porque quer. Esse tipo de frase é o gatilho que traz frustração. Não ajuda, não acolhe, simplesmente culpa. O endividamento muitas vezes não é culpa das pessoas. Elas perderam o emprego, tiveram redução salarial e você vai falar que é falta de educação financeira? Não. A educação financeira ajuda, emancipa, dá o poder de entender sobre crédito, juros, inflação. Mas se você não estiver ganhando um salário digno, como vai viver? As pessoas estão sobrevivendo, não estão vivendo.

PODER: ESSE INCÔMODO TE IMPULSIONOU?

NR: Em 2017 eu era uma jovem aprendiz ganhando um salário mínimo e me falavam sobre como guardar R$ 1 mil. Como assim? Eu não conseguia guardar nem R$ 300. São aquelas frases prontas: “Como guardar 30% da sua renda”, “Faça o método 30%, 20%, 50%”. Aí você tenta aplicar esses métodos da internet e se sente frustrada. É sempre a culpabilização do pobre. Quando decidi falar na internet quis acolher: “Essa é uma possibilidade que eu aprendi, que consegui fazer com o meu salário, o que vocês acham? Vamos compartilhar?”. Eu não chego e falo: “Você não se esforçou, não fez uma renda extra”. Aliás, a expressão ‘renda extra’ me dá calafrios. Esse tipo de fórmula pode ajudar parte da população, mas não a maioria dos brasileiros. Os livros de finanças colocam como se as pessoas soubessem o básico, mas saímos do ensino médio sem saber matemática. É preciso colocar exemplos reais para pessoas reais. Esse é o meu lema: “Finanças reais para pessoas reais”. O meu diferencial foi essa forma de comunicar. Soube trazer representatividade, as pessoas sabem que eu passei pelo que elas passam. Sabem que peguei busão, peguei trem e isso traz identificação.

Nath Finanças || Crédito: Pedro Campos

PODER: O DISCURSO LIBERAL DO MERCADO TE INCOMODA?

NR: Comentei na pandemia que deveria ter auxílio emergencial de R$ 600 e muitos liberais me criticaram. Se não fosse o auxílio, que a oposição aprovou enquanto o governo queria um coronovaucher de R$ 200, talvez muita gente estivesse mais abaixo da linha da pobreza. O auxílio foi importante e mesmo assim insuficiente. O salário mínimo é menos que o preço de uma geladeira, não dá nem para comprar uma geladeira à vista. Essa é a realidade do Brasil. Eu não vou chegar e falar para a pessoa que ela não se esforçou o suficiente, trabalhe enquanto eles dormem, faça renda extra. Infelizmente, as pessoas fazem renda extra não para poderem viajar, fazem por necessidade. É preciso quebrar esse discurso liberal de as pessoas se esforçarem e da meritocracia, que eu realmente não acredito.

PODER: O QUE É MERCADO PARA VOCÊ?

NR: As pessoas comuns só conseguem entender com exemplos do dia a dia. O mercado precisa explicar por que não gostou, porque não deu certo tal medida. O mercado é quem tem dinheiro, quem investe. São pessoas poderosas que quando tiram dinheiro de uma ação na bolsa fazem a diferença. A gente tirando R$ 100 não faz nenhuma. Elas possuem o poder político de definir eleições. O mercado financeiro em si é formado esmagadoramente por homens brancos que fazem a festa ou aproveitam esses momentos de incerteza no país para ganhar dinheiro.

PODER: O PAÍS PRECISA DE QUAIS REFORMAS PARA CRESCER?

NR: Falaram que aprovando a reforma trabalhista a gente teria um Brasil melhor, o dólar lá embaixo. Eu faço uma pergunta: “Quantas reformas serão necessárias para termos um país digno?”. É sempre uma desculpa de que se tiver a reforma tal o país melhoraria. São desculpas esfarrapadas. Precisamos de políticas públicas e governantes que realmente pensem na população, não que inventem desculpas liberais.

PODER: POR QUE CRITICOU O PIX PARCELADO, QUE BANCOS COMEÇAM A OFERTAR?

NR: Não quis dizer que é certo ou errado. Acho que toda questão revolucionária no sistema é positiva, mas a gente tem de olhar com calma. O Pix parcelado vai ser uma forma de lojistas e pequenos empreendedores, que pagam uma taxa de 2% a 6% numa maquinha de cartão, não pagarem mais por isso. Terão a possibilidade de receber o valor total [de uma venda] e o cliente parcelar a compra. O que me preocupa é mais uma forma sem ensinar as pessoas como usar, mais uma forma que pode ser de endividamento. As pessoas já não sabem como usar o cartão de crédito, porque não foi ensinado. É só [um discurso] parcele, parcele, parcele. Sem falar: “Espere um parcelamento para começar outro”. Será que Pix parcelado vai ser uma forma de ajudar as pessoas ou de ajudar os bancos a monetizarem, trazendo mais endividamento [para o consumidor]? Isso me preocupa em um momento difícil de pandemia em que o brasileiro está precisando de dinheiro.