O FUTURO DO MORAR

Com a transformação sem precedentes para o ecossistema imobiliário trazida pela pandemia, o setor busca atender novas demandas com abordagens inovadoras

Créditos: Getty Images

Por Angelica Mari

O impacto da pandemia trouxe uma série de mudanças para a forma como as pessoas vivem, trabalham e se divertem, e a casa tem sido o palco de todas essas transformações. Ao olhar para o futuro, especialistas convergem em um ponto: os desdobramentos da Covid-19 para o morar devem perdurar mesmo depois que a crise for superada, e ditar os rumos da vida doméstica nos próximos anos.

A centralidade do lar trazida pela necessidade de distanciamento físico impôs uma realidade nunca antes vista em tempos modernos. Em vez de ser predominantemente um lugar de descanso, a casa ganhou um caráter multifuncional: o local de moradia agora precisa ser escritório, academia, escola, bar, entre outros usos. Segundo a multinacional de previsão de tendências WGSN, os próximos anos apresentarão desafios e oportunidades para que o ecossistema da habitação – composto por agentes como arquitetos, decoradores e construtoras, até marcas de lifestyle e empresas de base tecnológica atuantes no mercado imobiliário – enderece as novas demandas de consumidores, bem como outros fatores macroeconômicos. 

Com a perspectiva de um futuro instável e incerto, que inclui possíveis eventos de impacto global como outras pandemias e crises climáticas, palavras prioritárias para o novo morar são proteção – tanto em termos de segurança física quanto do ponto de vista mental – além de saúde e bem-estar, segundo o The Future of Home 2030, relatório da consultoria que prevê os principais movimentos para a habitação na próxima década. “A relação com a casa está passando por um momento único de disrupção”, diz Daniela Dantas Vilar, vice-presidente para a América Latina na WGSN. “Assim como a conectividade, a necessidade humana básica de sentir segurança e a pandemia estão entre os fatores que influenciaram e influenciam diretamente as expectativas e a relação com a casa.”

O aumento do percentual do orçamento investido na moradia em grande parte do espectro social brasileiro tem sido notável desde o surgimento da pandemia, com uma priorização de gastos na aquisição de imóveis, reformas ou itens para melhorar a vida doméstica, segundo Mate Pencz, cofundador da startup de compra e venda de imóveis Loft: “Na classe média alta, por exemplo, reformas e a compra de um novo apartamento substituíram os gastos com viagens ao exterior”, diz o empreendedor.

O MORAR EM 2030: as principais tendências para a moradia na próxima década, segundo Daniela Dantas, vice-presidente para a América Latina na WGSN
Casa como santuário: Com o foco em saúde mental, o ambiente ganha caráter de refúgio, com espaços privativos mais definidos em contrapartida aos planos abertos
Casa multigeracional: Adaptação para até três gerações interagindo, com espaço para home office, brinquedoteca, sala de pintura e meditação
Casa como hub: Tudo disponível on-line, com o ficar em casa se tornando o novo sair. A decoração faz parte da selfie e ambientes precisam ser instagramáveis

Casa com espaços ao ar livre: Quintais, varandas e espaços externos se tornam um cômodo adicional e indispensável

Daniela Dantas

EM BUSCA DE REFÚGIO
Escolhas em relação à casa em nações politicamente polarizadas serão direcionadas pelo que a WGSN define como “fator medo”. Preocupados com a violência, incerteza em relação a governos e mudanças abruptas no clima, consumidores nesses países devem priorizar casas seguras, confortáveis e autossuficientes.

Este contexto aumenta a demanda por itens como purificadores de ar, filtros de água, energia fotovoltaica e superfícies com materiais antimicrobianos, bem como decoração e produtos que apoiem o autocuidado. A “mentalidade de sobrevivência”, que ganhou força em 2020, começa a se refletir nos projetos de arquitetura: segundo a empresa de previsão de tendências, espaços darão ênfase à proteção física, com mais lugar de armazenamento para estocar itens emergenciais.

O foco em ambientes que conduzam a experiências domésticas regenerativas inclui uma busca por refúgios em casas envoltas por natureza e amplos espaços externos, fora dos grandes centros urbanos. Essa tendência prevalece entre o público de maior poder aquisitivo, que tende a preferir condomínios fechados em que casas servem para trabalhar e relaxar – apesar de certos desafios como a educação das crianças, dada a limitação de escolas particulares em cidades menores.

Segundo a arquiteta Lua Nitsche, sócia do escritório Nitsche Arquitetos, o semiêxodo das grandes cidades é algo novo, que tem ganhado força desde a emergência da pandemia. A configuração das casas também sofreu mudanças inéditas: os projetos, que no início dos anos 2000 passaram a seguir o padrão integrado – como a casa em que Lua nasceu e cresceu no bairro paulistano do Butantã, projetada por Paulo Mendes da Rocha em 1970, revolucionária para a época – agora precisam atender às novas necessidades dos moradores. “Houve um movimento grande de integração das áreas comuns [nas últimas décadas], apesar de um resquício da cultura de serviços, em que alguém trabalha na casa e não está junto [dos moradores]. O que está indo na contramão agora é a necessidade de garantir espaços privativos de trabalho e estudo na casa, além das áreas comuns de convívio”, diz a arquiteta. Priorizando a flexibilidade, Lua também tem procurado incluir espaços multifuncionais nos projetos – uma garagem pode virar espaço para brincar em dias chuvosos, por exemplo – e um maior uso de materiais como drywall, que permitem mudanças no layout mais facilmente.

A maior permanência na casa e o expediente doméstico também trouxeram o início de uma grande valorização de aspectos que antes não tinham tanta importância: a cozinha ganhou protagonismo, com pessoas descobrindo ou retomando um interesse em culinária e em compartilhar refeições com a família. Há também um foco em questões como ergonomia, segundo Luna: “As pessoas estão percebendo que uma cadeira de trabalho não é igual a uma cadeira da mesa de jantar, e notando detalhes como a interferência da luz, acústica, proporções dos espaços. Mas não é algo muito consciente”, pontua.

A globalização, bem como as redes sociais e a Covid-19 contribuíram para um avanço no entendimento do grande público sobre a importância de ambientes bem pensados para seus habitantes. Mas o desenvolvimento de um olhar mais sofisticado em relação à casa é um processo multigeracional, diz Miguel Pinto Guimarães, arquiteto cujo escritório leva seu nome e sócio da incorporadora Opy, do Rio de Janeiro, com o arquiteto Sergio Conde Caldas. “É preciso que entes públicos e privados construam com qualidade, como já se fez nos anos 1950 e 1960, para comunicar à sociedade o que é bom ou ruim”, ressalta o arquiteto. “O Brasil vive uma crise estética: perdeu-se a noção de tudo, e o que vemos acontecendo na política atualmente faz parte disso.”

Segundo Guimarães, o morar com qualidade não deveria ser um privilégio das classes abastadas. “Construir bem e bonito não é mais caro do que construir algo feio. Há uma responsabilidade da arquitetura nesse sentido: nosso trabalho tem que ser focado em diminuir essas desigualdades”, pontua, acrescentando que empreendimentos que atendem a esses critérios já podem ser vistos em regiões “não nobres” do Rio, como o centro, zona portuária e Tijuca.

‘‘Agora há a necessidade de garantir espaços privativos de trabalho e estudo na casa, além das áreas comuns de convívio” – Lua Nitsche, arquiteta e sócia do escritório Nitsche Arquitetos

Lua Nitsche

A RESIDÊNCIA POR ASSINATURA
À medida em que novas necessidades surgem e tendências se aceleram com a pandemia, como o trabalho remoto e o nomadismo digital – em que profissionais trabalham de qualquer lugar do mundo e abrem mão da propriedade de um imóvel para morar – novas alternativas de habitação apoiadas por plataformas digitais começam a ganhar tração no Brasil. “Ao longo da vida, uma pessoa tem diferentes necessidades. Ao fazer uma viagem, se hospeda em um quarto de hotel de 10 m2 por alguns dias. Ao deixar a casa dos pais, aluga um imóvel com os amigos ou colegas de faculdade. Ao construir uma família, busca um imóvel com mais de 100 m2 ”, pontua Pencz, da Loft.

Um dos movimentos que busca atender às novas demandas de consumidores é a moradia por assinatura. Precursora nesse espaço, a startup paulistana Housi opera um marketplace digital de imóveis mobiliados de gestores de imóveis como anfitriões de Airbnb e imobiliárias, com um menu de serviços que inclui desde limpeza e alimentação até personal trainer. Fundada em 2019 por Alexandre Lafer Frankel, também dono da incorporadora e construtora Vitacon – especializada em pequenos apartamentos em regiões centrais – a Housi tinha um portfólio de imóveis com valor de mercado de R$ 3,5 bilhões no início de 2020, e atualmente está em R$ 10 bilhões. “Enquanto o setor discute se o imóvel do futuro será grande, pequeno, com ou sem home office, as tecnologias que estarão na casa, penso que tudo isso é trivial: o ativo vai acompanhar essas atualizações, mas a revolução está em como vamos usar esses espaços. Acredito que a casa será usada como serviço”, diz Frankel, cuja startup propõe ser o “sistema operacional” desses imóveis.

A maioria dos compradores dos apartamentos Vitacon e dos gestores que alugam seus imóveis pela Housi tem patrimônios estabelecidos, em que imóveis são elementos produtores de renda. Por outro lado, Frankel diz que o perfil do usuário é diferente: “Temos notado que a chance de uma pessoa querer comprar um imóvel entre os 18 e 40 anos de idade é cada vez menor. [Comprar] pode fazer sentido depois que ela formar uma família, mas quando a pessoa chega aos 60, o interesse cai de forma expressiva, pois as pessoas não querem mais ter o capital imobilizado”, pontua.

De acordo com o arquiteto Miguel Pinto Guimarães, da Opy – que também utiliza o modelo por assinatura em seus empreendimentos – existe a possibilidade de que o sonho da casa própria comece a se dissipar, à medida em que a sociedade atravessa grandes mudanças habilitadas por tecnologia. “Não tenho dúvidas de que a mudança na forma de morar acontecerá muito mais rapidamente do que nossa capacidade de prever ou avaliar. Hoje, é inimaginável para um jovem querer um carro, que era o sonho de outras gerações. O mesmo pode acontecer com a moradia.

‘‘É preciso que entes públicos e privados construam com qualidade, como já se fez nos anos 1950 e 1960, para comunicar à sociedade o que é bom ou ruim” – Miguel Pinto Guimarães, arquiteto e sócio da incorporadora Opy

A VIDA NAS CIDADES
Apesar da fuga de uma parte da população para cidades menores, os centros urbanos no Brasil devem continuar pujantes. De acordo com estimativas do Fórum Econômico Mundial, São Paulo vai permanecer entre as metrópoles mais populosas do mundo: atualmente em quarto lugar, a capital paulista deverá ocupar a nona posição no ranking em 2030.

Entre os principais movimentos previstos no relatório da WGSN para o morar nas cidades, está um aumento em lares compartilhados com diversas gerações e famílias, um movimento causado pela recessão. A ênfase no localismo, em que comércios e espaços de lazer, como parques, estão a 15 minutos de caminhada, deve ganhar força.

Segundo a consultoria, outra mudança que deve continuar a ganhar ímpeto na próxima década é a habitação flexível, em versões que incluem a moradia por assinatura com espaços prontos para morar (leia box ao lado) e o aluguel descomplicado por meio de plataformas digitais. Além disso, o uso de móveis multifuncionais e o aluguel dos mesmos por varejistas também serão comuns, com a diminuição do desejo de propriedade desses itens por parte de certos perfis de consumidores.

O novo morar em grandes cidades inclui um aumento expressivo na busca por imóveis em áreas arborizadas com espaços de lazer ao ar livre e maiores, tendência comprovada por plataformas on-line de compra, venda e aluguel de imóveis, como a QuintoAndar, que introduziu o conceito de aluguel sem fiador em 2013. Segundo Gabriel Braga, cofundador e CEO da startup, a alta na procura por imóveis com mais de 90 m2 desde o surgimento da pandemia demonstra que as pessoas sentiram falta de espaço, para o home office ou momentos de lazer, e essa procura deve permanecer. “Acreditamos que as pessoas passarão cada vez mais tempo dentro de casa, recebendo amigos e familiares, trabalhando e realizando outras atividades, como exercícios físicos”, pontua o empreendedor. “Diante desse novo olhar, a casa precisa ser mais espaçosa para reunir todas essas atividades. Isso quer dizer que a demanda por imóveis maiores deve se manter em alta por mais algum tempo.”

Uma pesquisa da QuintoAndar de julho de 2021 sobre hábitos comportamentais em relação à casa revelou uma diminuição no desejo de morar perto do trabalho, com uma queda de interesse por esse critério de 42,5%. Em contrapartida, economizar e ter mais tranquilidade são os fatores que mais ganharam relevância no último ano, subindo 13% e 7% respectivamente, em relação ao ano anterior.

A busca por uma vida mais tranquila inclui fatores como a estabilidade associada a um imóvel próprio. O financiamento de imóveis no país movimentou R$ 177 bilhões em 2020, alta de 32% e melhor resultado histórico, com expectativa de aumento de 21% neste ano, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança. O cenário é atrativo para quem quer sair do aluguel, diz Pencz, da Loft: “O Brasil, hoje, registra o seu piso histórico de juros, e um aperfeiçoamento do mercado de oferta de crédito, o que provocou um boom de financiamentos imobiliários”, ressalta o fundador. “Na maioria dos casos, com uma entrada de não mais que R$ 50 mil já é possível trocar o aluguel pela casa própria.”