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Fábio Bibancos e José Ricardo Muniz Ferreira resolveram ir além de cuidar do sorriso de seus pacientes e se uniram para apostar em uma nova vertente da medicina e da odontologia: células-tronco extraídas da polpa dos dentes de leite.

Fabio Bibancos e José Ricardo Muniz Ferreira no Instituto Bibancos || Foto: Roberto Setton

Por Márcia Rocha para a Revista PODER de julho || Fotos: Roberto Setton

Fábio Bibancos e José Ricardo Muniz Ferreira são dentistas. O primeiro é odontopediatra e outro, periodontista. Seguiram rumos diferentes na carreira, em cidades e estados diferentes, inclusive. Porém, quando se encontraram, em 2015, perceberam que sua trajetória profissional tinha muito mais a ver do que poderia parecer a princípio.

Comecemos por Fábio Bibancos, que tem clínica em São Paulo e abriu uma no Rio de Janeiro há cinco anos. Conhecido por atender a empresários e famosos – que prefere chamar de “célebres” e de quem não revela o nome a menos que os próprios tomem a iniciativa –, esse paulistano de 53 anos, que, este mês, recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Católica de Brasília (UCB) tem muitos motivos para sorrir. Um deles é a longevidade de seu Instituto Bibancos de Odontologia, que, em 2017, completa 30 anos de atividade com direito a um livro que conta a história da clínica e depoimentos carinhosos de quem costuma frequentar sua cadeira (leia boxe “Álbum de Recordações”).

Desde que começou a atender, Bibancos sempre teve como princípio só propor tratamentos que faria em seu próprio filho (ele tem um, aliás: Bernardo Bibancos, de 19 anos, que é ator). Também se deu conta da importância do tripé tempo/medo/dinheiro na relação entre dentista e paciente. “Por conta do dia a dia complicado, muita gente não tem possibilidade nem disposição para vir muitas vezes ao consultório”, diz ele, que criou o Day Clinic com a proposta de liquidar o assunto no menor tempo possível. Outra coisa que Bibancos sempre fez – e que acabou se tornando uma espécie de marca registrada e também uma vantagem competitiva – é atender em horários improváveis. “Começo às 13 horas e vou até bem tarde”, conta ele, que tem uma agenda em que não é difícil encontrar consultas marcadas às 23 horas ou mesmo mais tarde – ou mais cedo, dependendo do ponto de vista.

“Muita gente também tem pavor de ir ao dentista e, vamos combinar: é chato mesmo. Até eu mesmo acho”, diz com seu jeito direto e despachado. Para resolver essa parte, tratou de humanizar seu espaço de trabalho e de deixar a clínica com uma pegada de “entre e sinta-se em casa”. Esqueça aquela história de sala de espera feia e apertada com revistas velhas, a casa que abriga o Instituto Bibancos de Odontologia e o escritório que gerencia todas as operações da Turma do Bem (leia boxe abaixo), fica na Vila Mariana, bairro da zona sul de São Paulo, tem jardim interno, pé-direito alto, vários ambientes, decoração despojada e ambiente acolhedor. O paciente fica na cadeira o estritamente necessário. Na hora de ouvir as propostas de tratamento, por exemplo, vai para uma sala com paredes coloridas e uma enorme tela de TV onde são projetadas as imagens dos resultados que se pretende atingir. O bate-papo também pode ser na cafeteria, no jardim ou em qualquer outro espaço da clínica.

O capítulo dinheiro, que costuma ser limitador para muita gente, é resolvido com planos de pagamento discutidos caso a caso. Mas, é imporante dizer, Bibancos nunca foi adepto de uma prática relativamente comum entre profissionais que atendem a pessoas conhecidas: a “permuta”, em que o tratamento sai de graça ou praticamente isso e, em troca, o paciente vira uma espécie de garoto-propaganda. “Quando a pessoa não paga, não dá valor. Já cansei de ver meus amigos do teatro que têm permuta em restaurantes, por exemplo, escolherem lugares em que pagam a conta quando vão comemorar alguma data especial como aniversário”, diz. A única exceção que Bibancos que faz na planilha de pagamento é na Turma do Bem, projeto social criado por ele que já atendeu a mais de 70 mil jovens.

ALMA DE PESQUISADOR

Mais circunspecto, mas não menos entusiasmado com o que faz, o carioca José Ricardo Muniz Ferreira, de 48 anos, passou grande parte de sua vida em Vitória, no Espírito Santo. Antes de entrar na faculdade de odontologia, cursou três anos de biologia. “Na época, estamos falando de 1989, o biólogo tinha dois caminhos: virava professor ou ia trabalhar em uma empresa, em alguma atividade relacionada a impacto ambiental, por exemplo. Não era exatamente o que eu queria. Sempre pensei em fazer algo entre clínica e pesquisa, minha paixão. Acabei me decidindo pela odontologia por causa do meu padrinho, que era dentista”, lembra.

Ferreira, que tinha uma clínica em Vitória e duas décadas de carreira acadêmica dando aulas em várias instituições, nunca perdeu o interesse pela pesquisa. Tanto que, em 2013, se mudou de mala e cuia com a mulher, que é ortodontista, e os três filhos (Luísa, 13 anos, Davi, 5, e Gabriel, 3) para Valinhos, no interior de São Paulo. Escolheu a cidade vizinha, Campinas, para abrir a R-Crio, empresa especializada em isolamento, expansão e criopreservação de células-tronco extraídas de dentes de leite (leia boxe “Célula Vai Com as Outras”). “Coloquei meu diploma embaixo do braço e fui atrás de investimentos. Trabalho com um grupo de pesquisadores que, assim como eu, têm a pretensão de transformar conhecimento em algo útil para a sociedade. Para mim, não existe ciência sem essa entrega. Sempre acreditei nisso”, afirma.

Ferreira vem apostando suas fichas na chamada medicina regenerativa, que, segundo ele, chegou para mudar completamente o que se entende por cura e que tem nas células-tronco um de seus principais vetores. “A medicina regenerativa vai alterar totalmente a maneira como encaramos esse assunto. Se alguém, por exemplo, teve um tumor e, por conta disso, precisou passar por uma cirurgia para remover uma parte do nariz, uma orelha ou mesmo um dos olhos, como é que você devolve essa pessoa para a sociedade? Ficar curado quer dizer ganhar sobrevida ou ter a vida garantida? A medicina regenerativa não fala só de longevidade, mas também de qualidade de vida”, explica Ferreira, que é membro da Sociedade Internacional de Pesquisas com Células-Tronco (ISSCR, em inglês) e da Sociedade Internacional de Terapia Celular (ISCT, em inglês) – esta última congrega cientistas, experts em legislação, pesquisadores e parceiros da indústria, entre outros profissionais, para transformar a terapia celular em algo efetivo e seguro. Ferreira faz parte do comitê de comercialização de terapias e de regulamentação do ISCT – é o único representante brasileiro no board da entidade, aliás.

MUITO ALÉM DA ESTÉTICA

Uma coisa que sempre incomodou Ferreira é gente que termina a faculdade e acaba fazendo especialização, mestrado e doutorado na mesma área e se torna um superespecialista. “Eu sempre me preocupei em experimentar, em tentar outras coisas na carreira. Me especializei em uma área base, a periodontia, depois, fiz mestrado em implantodontia, que me trouxe um olhar clínico, e, na sequência, um doutorado em ciências dos materiais, em uma faculdade de engenharia”, explica. Bibancos construiu a carreira de maneira semelhante: “Sou especialista em odontopediatria e ortodontia, que me deram o olhar sobre a face, sobre os músculos e sobre como eles se complementam no indivíduo. Depois, fiz mestrado em saúde coletiva, que me deu essa abordagem mais geral”, compara.

É mais ou menos nesse ponto que a carreira deles converge, já que os dois se uniram para se tornar promotores de saúde. E foi graças à insistência da coordenadora da Turma do Bem, no Espírito Santo, que se conheceram. Bibancos conta que só se deu conta da dimensão do que Ferreira fazia quando conheceu a R-Crio. “Imagine o seguinte: a mãe traz o filho ao consultório, eu extraio o dente de leite dele e tenho células-tronco dessa criança para o resto da vida. Essa pode ser a solução para qualquer problema de saúde que ela venha a ter no futuro. Quando as pesquisas avançarem mais, isso vai mudar completamente o papel dos dentistas na vida das pessoas, vai mexer com os convênios médicos, com a legislação, com tudo!”, entusiasma-se Bibancos. Ferreira completa: “A gente extrai uma quantidade muito pequena de células do dente de leite e rapidamente consegue multiplicar isso para mais de 100 milhões de células-tronco”. Ou seja, como diz o próprio Bibancos, o poder disso é gigante. O sonho é enorme e não se limita às clínicas de Bibancos ou aos jovens atendidos em seu projeto social. A ideia é que ninguém mais tenha motivos para deixar de sorrir – por falta de dentes e por falta de saúde.

CÉLULA VAI COM AS OUTRAS

Simplificando bastante, a célula-tronco é uma espécie de matriz, de chave-mestra celular e tem capacidade de se transformar em outras célula-tronco ou de se diferenciar em outros tipos de célula. As extraídas da polpa do dente de leite, por exemplo, podem “virar” músculos, pele, ossos, tecido cardíaco, nervoso etc. No caso de adolescentes e de adultos, é possível usar os dentes do siso. Entre as terapias realizadas ou em fase final de testes estão enxertos em queimaduras, regeneração da córnea e de lesões ósseas, entre outras. Também há pesquisas em andamento para tratamento do câncer, autismo, Alzheimer e diabetes tipo 1, só para citar alguns exmplos. Ou seja, temos uma revolução na saúde a caminho.

POR MUITO MAIS SORRISOS

Corria o ano de 1995. Bibancos tinha acabado de lançar o livro Um Sorriso Feliz para Seu Filho (Editora CLA) e começou a dar palestras sobre prevenção em escolas particulares e públicas. Nas públicas, as mães vinham agradecer no fim e, meio constrangidas, pediam: “Será que o senhor poderia dar uma olhada na boca do meu filho?”. A organização social Turma do Bem – ou TdB – nasceu assim: Bibancos começou a atender ele mesmo essas crianças e a convocar amigos a fazer o mesmo. Hoje, o Dentista do Bem, que é o principal projeto da TdB, tem mais de 17 mil dentistas cadastrados no Brasil e em mais 14 países da América Latina e também em Portugal, e já atendeu a mais de 70 mil jovens entre 11 e 17 anos. Segundo Bibancos, 85% dos dentistas do bem são mulheres de 30 a 40 anos que já têm a carreira consolidada. Ele conta que não só os dentistas contribuem para o projeto, mas seus pacientes também. Cada um entra com seu trabalho: os atores divulgam, os jornalistas escrevem o material impresso e assim por diante… “Eu não entendo a indústria da beleza, que não patrocina o sorriso. Sabe qual é a primeira coisa que as meninas fazem quando saem daqui com os dentes arrumados? Passam batom.”

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES

Cheio de ilustrações, fotos e histórias, O Pequeno Palácio do Sorriso sai este semestre para comemorar os 30 anos do Instituto Bibancos de Odontologia. De globais a empresários e executivos, vários pacientes deram seu depoimento. A obra, aliás, é um presente do artista plástico Lúcio Carvalho, paciente que, como vários outros, acabou se tornando amigo de Bibancos.