Revista Poder

RECURSO HUMANO

Danilo Costa || Crédito: Roberto Setton

Por Paulo Vieira Fotos Roberto Setton

 

Quando procuram a dor que irão “curar”, fundadores de startups não costumam levar em conta, prioritariamente, o propósito. Querem achar algo rapidamente escalável, eventualmente inédito, mas não necessariamente melhor para a sociedade – ainda que esse conceito possa ser bastante relativizado. Danilo Costa, fundador do Educbank, empresa que oferece apoio financeiro a escolas particulares dos ensinos fundamental e médio, para que assim consigam lidar com a inadimplência de seus alunos, está muito longe de ser o sujeito que joga dinheiro do helicóptero, mas ele tem em relação a seu segmento de eleição, a educação básica, algo que pode ser chamado de afeto.

Danilo é neto de professores – a avó paterna foi ainda presidente do Conselho Estadual de Educação do Mato Grosso do Sul – e ele, apesar de ter se formado em Direito pela FGV e encetado carreira no mercado financeiro, “largou tudo”, como diz, para empreender na educação.

A educação básica é um mundo à parte, tem sazonalidades diferentes, stakeholders diferentes, a gente precisou se debruçar sobre ela com olhar de nicho. Por isso somos Educbank, não ‘BankEduc’

 

Primeiro, em 2017, com uma escola de turno integral “low cost”, que ele pretendia tornar também escalável, a Vereda. Com ela, Danilo tentou mudar a ideia bastante sedimentada no Brasil de que esse tipo de produto era exclusivo das classes mais privilegiadas; e, desde 2020, com o Educbank.

“A educação básica é um mundo à parte, tem sazonalidades diferentes, stakeholders diferentes, a gente precisou se debruçar sobre ela com olhar de nicho, com olhar de especialista. Por isso somos Educbank, não ‘BankEduc’”, disse Danilo a PODER, no escritório compartilhado da empresa, um “We Work” com direito à mesa de pingue-pongue no Itaim Bibi, em São Paulo. “A gente não analisa nenhum outro setor, não olha turismo, não olha o varejo, a gente respira educação sete dias por semana”, completa.

A justificativa pode soar algo messiânica, mas Danilo, aos 34 anos e já em seu segundo negócio, não se incomoda em parecer grandiloquente. É a educação, afinal, o substrato para o desenvolvimento econômico das nações e, talvez mais importante, para o aprimora mento das sociedades. Em países socialmente injustos como o Brasil, é ela o principal vetor de correção da desigualdade socioeconômica. Ainda que lide com um universo de menos de 10 milhões de alunos em todo o país, muito inferior ao contingente de matriculados em instituições públicas, as escolas privadas colaboram, quando menos, ao não inchar e onerar ainda mais a rede pública.

O Educbank foi pioneiro em levar crédito para um setor que, segundo ele, jamais foi contemplado com programas de incentivo econômico, fomentos, desonerações, programas de formação de “campeãs nacionais”, diferentemente, Danilo mesmo exemplifica, de “frigoríficos e postos de gasolina”. Trata-se de uma “nota de rodapé” na agenda governamental, que prefere injetar capital ou oferecer crédito subsidiado para segmentos de “menor externalidade” do que a educação básica – ou seja, que geram menos impactos positivos para a sociedade como um todo e para os demais setores econômicos. Com tudo isso, o atual alcance da empresa – 200 escolas particulares em 17 estados brasileiros – lembra a proverbial gota no oceano. Existem, informa Danilo, 42 mil escolas privadas no país e parte substancial delas, dada a vocação “agnóstica” do Educbank, são elegíveis para receberem créditos. A meta de curto prazo, o fim de 2023, é quintuplicar o atual alcance. O Educbank trabalha com escolas de “bairro”, como Danilo gosta de dizer, com mensalidade média de R$ 1 mil, consideradas aí todas as discrepâncias regionais. O agnosticismo da empresa se manifesta na falta de “preconceitos” em relação às mensalidades cobradas pelos clientes. Danilo diz que trabalha com escolas que cobram de seus alunos valores que vão de R$ 250 a R$ 5 mil.

RECONHECIMENTO

O pioneirismo do sul-mato-grossense tem sido reconhecido internacionalmente. Danilo foi uma das atrações brasileiras da Web Summit, que vem se afirmando como o principal festival de tecnologia do mundo, e que ocorreu em Lisboa, no começo de novembro; também está entre os cinco únicos brasileiros da mais recente lista dos inovadores da América Latina com menos de 35 anos do MIT, o venerável Massachusetts Institute of Technology; ele é ainda embaixador para inovação da London School of Economics. Um novo prêmio, esse a ser dado por uma das quatro “big consulting”, as maiores consultorias mundiais, também será logo “endereçado” ao Educbank. Dá para assumir que essas organizações entenderam o impacto da tese do Educbank, que Danilo explica diligentemente ao interlocutor quantas vezes forem necessárias. Para ele, quando o mantenedor de uma escola – em geral seu próprio diretor – é obrigado a lidar com a inadimplência de seus alunos, ele deixa de se dedicar a assuntos essencialmente pedagógicos ou que terão efeito sobre a qualidade dos serviços da escola, como a formação continuada dos professores, a ampliação de uma biblioteca, a construção de um ginásio e até uma hipotética expansão da rede. A inadimplência na educação básica, ao contrário de muitos setores, é mato. E por uma razão de ordem legal. No Brasil, as instituições de ensino não podem cobrar de quem paga em atraso mais de 1% de juros ao mês, além da correção inflacionária. Por isso, muitos pais optam, deliberadamente, por não quitar as mensalidades escolares de seus filhos até o fim do ano, quando a matrícula para o próximo período assim o exige. “Os pais usam as escolas como instrumento de alavancagem financeira, faz muito sentido para eles suavizarem desse jeito o orçamento familiar”, diz Danilo.

“Quando chega o dia 4, véspera do pagamento de professores e funcionários, e as mensalidades não entraram, é desesperador, você não sabe o que faz”

Ao fechar contrato com as escolas, o Educbank adianta os valores das mensalidades e assume o risco da inadimplência dos pais, que se tornam devedores exclusivos da startup. É de se imaginar, assim, que o risco que o Educbank passa então a correr é muito alto, mas, a taxa de inadimplência, segundo Danilo, é administrável – a perda efetiva de carteira é de um “dígito muito baixo”, conta. O modelo lembra o do Quinto Andar, “inspiração”, segundo o fundador, que também assume o risco de inadimplência dos inquilinos ao se tornar fiador perante os proprietários. O recurso que efetivamente remunera o Educbank é uma taxa, cobrada das escolas, muito inferior, de acordo com Danilo, ao preço do crédito oferecido pelo mercado.

Danilo diz que, de fato, no começo, ouviu de interlocutores que a empresa que pretendia colocar de pé era “loucura”, e que, se a ideia fosse mesmo viável, “as instituições financeiras já a teriam implementado”. O empreendedor gosta de falar em “tabu”, que ele acredita ter ajudado a quebrar, ao mostrar, “com evidências”, que é “possível acreditar na educação básica”, isso é, nela aportar capital. Para ele, as escolas fazem parte de um setor que “aguenta desaforo”, ao, por exemplo, conseguir repassar a inflação para o preço das novas anuidades, mas que mina de seus gestores “o emocional, a autoconfiança e o otimismo”. “Quando chega o dia 4, véspera do pagamento de professores e funcionários, e as mensalidades não entraram, é desesperador, você não sabe o que faz.”

Crédito: Roberto Setton

 

GRANA NO INVERNO

Em pleno inverno das startups, com empresas do ecossistema sendo obrigadas a demitir industrialmente (veja boxe na pág. 22), é notável que o Educbank tenha acabado de celebrar o grande negócio de sua tenra história. O grupo recebeu da Vasta, braço de educação básica da Cogna, maior corporação educacional do país, uma injeção de R$ 158 milhões, oferecendo em troca 47,7% de participação para a detentora de marcas como Anglo, Pitágoras e as editoras Ática, Saraiva e Scipione. O deal, diz Danilo, não impõe restrições ou exclusividades, ainda que um cross selling com a rede de escolas da Vasta colocasse à disposição do Educbank 4,2 mil instituições, 42% do “sonho grande” do empreendedor, que é ter 10 mil escolas como clientes. Danilo celebra a entrada do dinheiro, mas também de “cabeças brancas” no Educbank. Para ele, Mario Ghio, diretor-presidente da Somos Educação, holding de educação básica da Vasta, é um dos melhores profissionais do setor do país e tê-lo como mentor, “um privilégio”. Sócio da F5 Business Growth, professor do Insper e mentor da Endeavor Brasil, o consultor Renato Mendes diz que o fundador do Educbank “foi muito inteligente ao atacar o problema da inadimplência escolar”, remunerando-se com uma taxa pelo serviço. E agora, com o que chama de “dinheiro infinito” da Cogna, não há, segundo ele, qualquer cenário de insolvência no horizonte.

Ao adiantar o capital e, com ele, trazer foco, tempo e estabilidade emocional para diretores e gestores de escolas poderem pensar em algo que não as dívidas de curto prazo, o Educbank abre, de quebra, um campo de possibilidades para atender novas demandas desses profissionais. A empresa, de fato, tem o que Danilo chama de “cinturão do Batman”, conjunto de ferramentas como softwares de gestão (ERPs), pacotes de soluções de marketing e até placas solares, que o empreendedor oferece aos clientes dentro de uma espécie de marketplace, permitindo que as empresas que comercializam esses produtos utilizem uma plataforma comum.

Tendo fundado a Vereda Educação, hoje com três unidades em São Paulo e ABC, Danilo tem o tal lugar de fala para entender com propriedade as dores de seus clientes, e, com isso, saber que a análise de risco e a anamnese que precisa fazer antes de fechar contratos é a pedra de toque de seu negócio. As coisas se complicam um pouco pela governança ruim das escolas – menos de 1% delas, segundo ele, tem balanço patrimonial auditado – e pela própria pulverização do sistema. Mas são justamente essas duas características do setor, pulverização e má governança, que repelem a concorrência e inibem uma possível concentração do segmento, dificultando a aquisição, por parte de grandes players, de market share relevante.

“Os pais usam as escolas como instrumento de alavancagem financeira, faz muito sentido para eles suavizarem desse jeito o orçamento familiar”

Seja como for, mesmo em cenário aparentemente hostil, Danilo tem ao menos um rival peso pesado, o isaac, que surgiu também em 2020 e tem 800 escolas como clientes. O grupo educacional Arco, outro entre os maiores do Brasil, detinha 25% do isaac, mas triplicou a aposta em outubro, assumindo controle total do negócio e colocando pressão na concorrência. Isso parece não preocupar Danilo, que diz ter perdido apenas um único cliente desde que entrou no mercado.

Enquanto ele estiver à frente da empresa que fundou, sua missão seguirá a ser “colocar turbinas nas asas das escolas” e, dessa forma, para usar de novo a metáfora, turbinar institucionalmente a educação brasileira.

Danilo Costa || Crédito: Roberto Setton

 

LUCRO E AMBIÇÃO

Danilo Costa enxerga o famoso inverno das startups pelo lado do copo cheio. Para ele, o excesso de liquidez que irrigou o ecossistema gerou distorções, a ponto de haver “ambientes em que falar de lucro parecia falta de ambição”. O Educbank, segundo ele, nasceu sob ótica muito mais austera, porque é “pouco intensivo em gente”, tem “estrutura de custos razoavelmente endereçada” e “potencial de crescimento enorme”. Mais importante, diz o fundador, ele surgiu com capital próprio, o que exigiu dos gestores uma diligência “absolutamente diferenciada”. Com base numa pesquisa da EY-Parthenon, que mostra que 33% dos pais de alunos não conseguem pagar as mensalidades e 45% reportam dificuldades, Raquel Teixeira, sócia da EY Private, realça a importância de companhias como o Educbank para o setor educacional. “Elas trazem agilidade e possibilidade de novas iniciativas, como o próprio adiantamento de receita. Contar com parcerias de empresas privadas pode melhorar a qualidade do ensino e diminuir custos.”

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