Revista Poder

O BANQUEIRO DOS BANQUEIROS

Por Anderson Antunes

Avesso a entrevistas, o libanês naturalizado brasileiro Edmond Jacob Safra, nunca gostou de chamar a atenção, e, na medida do possível, manteve uma vida discreta – sem a extravagância típica de bilionários de seu quilate. O pouco que se sabe sobre o homem por trás de quatro grandes bancos – Banco Safra, em São Paulo; Republic National Bank, em Nova York; Trade Development Bank (TDB), em Genebra; e Safra Republic Holdings, em Luxemburgo – vive na memória de seus poucos amigos. Parte desses relatos está na recém-lançada biografia A Banker’s Journey – How Edmond J. Safra Built a Global Financial Empire (A Jornada de um Banqueiro – Como Edmond J. Safra Construiu um Império Financeiro Global, em tradução livre) do jornalista americano Daniel Gross. Para escrever o livro, processo que levou cinco anos, Gross conseguiu entrevistar a viúva, Lily Safra (falecida em julho deste ano), que cedeu fotos de seu arquivo e leu o manuscrito final. Além disso, teve acesso a dezenas de áudios, documentos e histórias coletadas pela Fundação Edmond J. Safra pouco depois da morte dele, em 1999. No livro, é possível saber mais detalhes de sua trajetória. Por exemplo: a campanha de difamação que sofreu quando estava negociando a venda de um dos braços do Republic para a American Express, que foi um dos piores momentos vividos por ele. Mas Edmond reverteu a situação com sua perspicácia e inteligência. Ao notar que havia algo estranho na situação, contratou profissionais para investigar e descobriu que tudo não passava de manobra para desvalorizar seus ativos. Processou a Amex e venceu. Além de limpar sua imagem, ele recebeu uma indenização de US$ 250 milhões.

Edmond Safra e a recémlançada biografia de um dos maiores banqueiros que o mundo já viu

 

O livro traz, ainda, um capítulo sobre o período em que Edmond viveu no Brasil e se aproximou de importantes empresários do país. Leia-se: Roberto Marinho, do Grupo Globo, o editor Adolpho Bloch e o também banqueiro Walter Moreira Salles, entre outros. Edmond era conhecido por doar na mesma proporção em que ganhava. Até sua morte, estima se que tenha doado em torno de US$ 1 bilhão. Parte de sua fortuna, avaliada em US$ 12,5 bilhões, foi destinada à caridade e à fundação filantrópica que leva seu nome. A contracapa do livro, aliás, traz um “beneficiado” famoso: Elton John, que era amigo do banqueiro e recebeu milhões de dólares para a Elton John Aids Foundation.

SEMPRE NO CONTROLE

Casado com a brasileira Lily Safra, socialite que circulava pelos melhores salões do mundo, o empresário não tinha filhos e trabalhou até o fim de sua vida. Isso porque sempre resistiu em contratar um CEO para transferir o controle de seus negócios. Em 1990, foi diagnosticado com doença de Parkinson e, com o tempo, já não conseguia tocar as empresas da mesma forma. Na ocasião, comentava-se que seus irmãos se envolveriam nos negócios, mas, pouco antes de morrer, Edmond resolveu vender “seus filhos”, como chamava os bancos. Foi uma forma de não precisar pensar em sucessão – decisão que não causou estranheza naqueles que o conheceram. Afinal, as empresas eram parte de sua vida e ele guardava na memória o tempo em que recebia CEOs de bancos concorrentes que confiavam a ele a missão de guardar parte de seus estoques de ouro nos cofres do Republic, que eram considerados impenetráveis. Pelos clientes poderosos que atraía, Edmond ganhou o apelido “o banqueiro dos banqueiros”.

Filho de Jacob Eilahou Safra, Edmond, o mais velho de nove irmãos, teve a quem puxar. Seu pai era dono de uma empresa que operava como casa bancária em Alepo, na Síria. Nos anos 1950, a família que nessa época morava em Beirute, no Líbano, teve o apartamento saqueado. O Brasil, então, se tornou o destino do clã, por ser mais acolhedor com imigrantes e pelas oportunidades que oferecia por conta da fase desenvolvimentista daquela década.

GOLPE DO DESTINO

Os Safra desembarcaram no Rio de Janeiro em 1954. No ano seguinte, Jacob fundou o Banco Safra com três de seus filhos, Edmond, Joseph e Moise. Na época, Edmond tinha pouco mais de 20 anos e mal falava português. No início, ele achou o mercado brasileiro fechado e muito controlado. Começou a vender café para os Estados Unidos e, em seguida, para outros países. Em pouco tempo, criou uma operação totalmente à parte da empresa familiar. Sempre em busca do melhor lugar para os seus negócios, Edmond decidiu se mudar para os Estados Unidos, já que a economia daquele país era livre. Foi lá que se consagrou como gênio das finanças. Falava sete idiomas e não havia transação que não conseguisse fechar.

Em 1999, uma cilada tirou sua vida. Tentando se passar por herói, um de seus enfermeiros inventou que o apartamento onde o banqueiro morava em Mônaco estava sendo invadido por criminosos. O intuito era “salvar” o patrão e ser regiamente recompensado por isso. Mas a encenação saiu do controle quando o fogo ateado em uma lata de lixo para aumentar o drama atingiu as cortinas do apartamento. Edmond, que sempre teve pavor de ser sequestrado e andava com seguranças que eram exagentes do Mossad, trancou-se no banheiro com uma enfermeira. Os dois morreram asfixiados.

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