Revista Poder

CURTO-CIRCUITO

Por Caroline Marino

Imaginar como seria a vida sem internet é praticamente impossível. Mesmo quem nasceu antes do advento da rede sente dificuldade para lembrar como era viver e trabalhar de um jeito analógico. Não é para menos – afinal, já faz algumas décadas que a tecnologia está presente em praticamente tudo o que fazemos. No trabalho, para buscar informações, aprimorar o conhecimento, realizar reuniões, falar com as pessoas por meio de e-mails e de aplicativos de mensagens, e reforçar o networking e os relacionamentos via redes sociais. E depois do expediente não é diferente, já que a tecnologia está por trás dos serviços de streaming e dos videogames, só para citar dois exemplos. Um levantamento feito pelo NordVPN, consultoria especializada em cibersegurança, mostra que as pessoas passam, em média, quatro dias por semana totalmente conectadas, o que equivale a 197 dias por ano ou mais de dez anos se considerarmos que alguém fez isso durante duas décadas. A pesquisa aponta, ainda, que as pessoas costumam se conectar por volta das 8 da manhã e só saem do computador e do celular quando passa das 22 horas.

Ou seja, estamos trilhando um caminho sem volta. O mundo contemporâneo é conectado e não dá para escapar disso. Porém, de uns tempos para cá, especialistas têm se debruçado sobre os efeitos da internet em nosso cérebro. Segundo um estudo realizado por cinco universidades – Sydney University, Harvard, King’s College, Oxford e University of Manchester –, a internet produz alterações agudas em áreas específicas do cérebro que impactam atenção, memória e interações sociais. Basta pensar em quantas vezes por dia você é “interrompido” em meio a um relatório importante com o toque das notificações do WhatsApp ou para tudo o que está fazendo para dar uma olhada nas últimas publicações do Instagram. Quer outro exemplo? Você se lembra “de cabeça” de números de celular e de outras informações ou precisa recorrer ao Google e à agenda do celular?

 

 

“Temos que decidir o que queremos para nossa vida. A tecnologia é inevitável, mas não pode estar no controle. Deve ser nossa escrava – não nossa mestra”

 

A cientista inglesa Susan Greenfield, pesquisadora da Universidade de Oxford, no Reino Unido, tem uma explicação para isso. Segundo ela, o cérebro vai se moldando para se adaptar às situações. E as tecnologias digitais o afetam como qualquer elemento de interação que faça parte de nosso cotidiano. O sinal de alerta, na visão da especialista, é que a vida em rede está mudando a formação de nossa identidade, tornando-a dependente da percepção que outras pessoas têm sobre nós e, consequentemente, alterando nossos relacionamentos. Em um vídeo no canal do YouTube do projeto Fronteiras do Pensamento, que reúne pensadores influentes em várias áreas, Susan explica que pode acontecer, por exemplo, de pessoas adeptas de videogames desenvolverem uma coordenação sensorial e motora muito boas, mas não se sentirem confortáveis em se comunicar e em manter relacionamentos estáveis ao vivo e em cores. “O que precisamos é decidir o que queremos para nossa vida. A tecnologia é inevitável, mas não pode estar no controle – deve ser nossa escrava, diz ela.

Um lado bom e outro nem tanto

Alguns estudos mostram que os videogames aumentam áreas do cérebro que liberam dopamina, um dos neurotransmissores que produz sensação de bem-estar e felicidade e que estimula a criatividade. O caso é que ficar horas jogando pode provocar alterações que são detectadas em exames cerebrais. Uma pesquisa feita pela Universitat Oberta de Catalunya (UOC), da Espanha, mostra que jogar videogames não apenas altera o desempenho do cérebro, mas também sua estrutura. De um lado, pode gerar benefícios relacionados a diferentes tipos de atenção, à capacidade de orientação espacial e, até mesmo, ao desenvolvimento de habilidades cognitivas e motoras. De outro, com o uso excessivo, os jogos eletrônicos podem deixar as pessoas emocionalmente vulneráveis e provocar baixa tolerância à frustração, ansiedade social e até mesmo problemas relacionados à autoestima. “Para algumas pessoas, esses recursos eletrônicos podem se tornar uma maneira de diminuir o estresse e receio que sentem da vida real. Elas acabam se refugiam no mundo virtual, que é onde encontram mais satisfação”, explica o psiquiatra Renato Silva, especializado em bipolaridade e depressão, e apresentador do podcast Voo Bipolar, que é focado na patologia.

O uso excessivo de redes sociais e videogames pode trazer prejuízos, principalmente quando a pessoa sacrifica ou mesmo para de fazer atividades importantes para manter a saúde física e mental. Tem gente que deixa de se alimentar, dormir, estudar, trabalhar ou mesmo de socializar para ficar nas redes sociais ou jogando videogame, como explica Renato. “Nesse contexto, é necessário avaliar não somente o tempo gasto na internet, mas o padrão desadaptativo do uso”, completa.

Pode viciar?

Estudos realizados no Brasil, caso do que foi feito por Cristiano Nabuco, coordenador do programa de dependência de internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP), apontam uma possível relação entre a dependência da internet e transtornos mentais como depressão, bipolaridade, déficit de atenção e hiperatividade. Na visão da psiquiatra Fabiana Nery, professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba), características pessoais como traços de personalidade ou patologias preexistentes podem influenciar diretamente nos efeitos que o uso dessas tecnologias provoca no cérebro, no comportamento e nas emoções. “Para algumas pessoas, as redes sociais podem proporcionar um senso de conexão e de pertencimento que pode ser positivo. Para indivíduos já fragilizados os efeitos incluem ansiedade e rebaixamento de humor gerados por comparações irreais”, diz. De acordo com Fabiana, em pessoas com perfil mais frágil ou comportamento disfuncional, o uso excessivo de mídias sociais pode levar a prejuízos como sintomas ansiosos e depressivos, dependência emocional e digital. “O uso contínuo do celular pode causar um tipo de comportamento muito parecido com o de pessoas viciadas em drogas. Ansiedade, vazio existencial, solidão e até sintomas físicos”, finaliza.

 

A VIDA É UM POST
Susan Greenfield, pesquisadora da Universidade de Oxford, conta que certa vez assistiu a um filme em que uma das cenas mostrava duas meninas conversando em um carro, quando uma delas pergunta: “Como você se sente dentro desse carro?”. A amiga não responde algo como estou triste ou feliz ou animada. A resposta é: “Esse é um carro digno de um post no Instagram”. Na visão de Susan, algumas pessoas estão construindo uma identidade no ambiente digital que, em boa parte, é formada pela percepção que os outros têm sobre nós. Um site chamado Klout, por exemplo, mede a importância de seus usuários por meio de pontos – o Klout Score. E as pessoas pagam não só para ver quantos pontos têm, mas também para aumentar sua pontuação. Agora, responda: parece ou não uma cena típica de Black Mirror?

 

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