Revista Poder

COM OS PÉS NO CHÃO

Créditos: Maurício Nahas

Por Amauri Arrais
Fotos Maurício Nahas
Styling David Pollak
Beleza Marcos Padilha

Humberto Carrão tinha 14 anos em 2005 e acabara de conhecer a popularidade de estar em um programa de sucesso na televisão. Após a estreia em Bambuluá, série infantil estrelada por Angélica, havia emendado a 11ª temporada de Malhação, a mesma que alçou Marjorie Estiano como líder da Vagabanda e cuja audiência batia a principal novela da Globo de então, Senhora do Destino. Durante um passeio, um fotógrafo se aproximou do ator, mas foi repelido pela repórter: “Não, não, não! A temporada dele já acabou”.

O episódio, que poderia ter traumatizado o adolescente estreante, funcionou como um marco orientador de carreira do ator. “Aquilo para mim foi importante para entender que as coisas vão e vêm”, diz Carrão. “Tem a ver com a educação que meus pais me deram, mas também com minha maneira de olhar o mundo. É importante também conhecer o lugar do fracasso, experimentar, errar, entender a possibilidade de não ser aplaudido. Acho que muito cedo percebi isso.”

Os altos e baixos se repetiriam nas mais de duas décadas de profissão do ator de 31 anos, com a balança pendendo, majoritariamente, para o lado dos êxitos. Em 2016, ao desembarcar em Cannes com a equipe do filme Aquarius, se deu conta, ao ser questionado pelo diretor Kleber Mendonça Filho, de que não havia se visto ainda projetado em uma tela de cinema. “Uau! Você vai se ver pela primeira vez em um dos cinemas mais importantes do mundo”, observou o diretor, que, pouco depois, junto com o elenco, faria um protesto contra o impeachment de Dilma Rousseff, uma imagem que rodou o mundo.

Paletó Camargo, camisa Oficina, calça Adidas, mocassim Pacco Littos, meia acervo, anel Flavia Madeira e Julio Okubo

Carrão reconhece que o filme, que concorreu à Palma de Ouro, “mudou sua vida”, mas pontua que não lembra com deslumbramento o fato de ter estreado contracenando com Sonia Braga. Nem precisava. Conversar com o ator é ouvir um discurso pouco ensaiado ou salpicado de frases feitas – como é comum entre colegas seus – que se empolga ao falar dos muitos projetos que ainda quer realizar. Dentre os quais, está o de dirigir o primeiro longa. Antes da pandemia, tomou coragem e convidou a escritora Ana Maria Gonçalves, autora do romance histórico Um Defeito de Cor, do qual é fã, para escrever um roteiro. Acabaram desenvolvendo duas histórias, que foram paralisadas pela impossibilidade de novos encontros presenciais e a volta às gravações do ator.

A relação com a sétima arte é antiga. Formado em cinema pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carrão já havia dirigido dois curtas, com os quais percorreu festivais, e apresentado um programa no Canal Brasil sobre o tema antes de chegar ao set de Aquarius. Desde então, acumulou outros papéis marcantes na tela grande, como o guerrilheiro Humberto, militante fictício da Ação Libertadora Nacional morto na luta armada contra a ditadura em Marighella, de Wagner Moura.

Estar em dois longas com forte crítica social em papéis que fogem ao estereótipo de galã não é obra do acaso. “Sou um cidadão político”, diz o ator, que confirma já ter dado muitos “nãos” a propostas que não o mobilizam. “Me sinto privilegiado de poder estar em projetos que me or – gulham, principalmente nos últimos anos, em que o país resolveu tratar a cultura como inimiga. Conheço muita gente incrível que está sofrendo com pouco trabalho ou tendo que abandonar a profissão.”

Em seu mergulho para dar vida aos personagens, se assemelha a Caco Barcellos – ou pelo menos a versão fic – tícia que encarna do jornalista em Rota 66: A Polícia que Mata, série que estreou em setembro no Globoplay. Ob – sessivo como um bom repórter, Carrão não se conten – tou em ler o livro reportagem em que a obra se baseou. Também pediu dicas de títulos que fizeram parte da for – mação de Barcellos e esteve a seu lado no Complexo do Salgueiro, no Rio, durante uma reportagem sobre violên – cia policial para o Profissão Repórter. “Acho que fiquei um pouco contaminado pelo personagem”, assume.

terno Dior, camisa Oficina, sapato CNS, colar e anel Julio Okubo

LOW PROFILE

Longe dos estúdios de gravação, Humberto Carrão leva uma vida que pouco tem a oferecer à mídia que se alimenta da rotina badalada de artistas. Recentemente, se separou da também atriz Chandelly Braz, uma relação que durou dez anos. Os dois engataram o namoro nos bastidores da no – vela Cheias de Charme, em 2012, e seguem amigos. O ator também faz questão de frequentar os mesmos bares e ro – das de samba desde a época de faculdade, o que fez um site estampar a chamada: “três lugares para esbarrar no solteiro Humberto Carrão”. “Ali teve algo não muito correto porque me perguntaram que lugares eu indicaria no Rio.”

Nas redes sociais, costuma compartilhar os últimos tra – balhos, protestos e apoios políticos, um pouco de sua pai – xão pela música e só. “As pessoas estão viciadas em com – partilhar sua privacidade, em ter que manter um público fiel como se fosse um patrimônio. Não tenho essa relação de posse. As pessoas estão ali porque estão interessadas. Se amanhã não estiverem, tudo certo.” O ator também diz não dar muita bola para haters – chegou a receber ameaças na época dos lançamentos de Aquarius e Marighella – e admite que o posicionamento político deve torná-lo alguém “me – nos interessante para as marcas”. Mas essa, afirma, é tam – bém uma condição que não está disposto a negociar.

Os olhos voltam a brilhar ao falar do novo trabalho. Em Todas as Flores, novela de João Emanuel Carneiro que será a primeira feita para o streaming, Carrão será um empresário que vive um triângulo amoroso com as atrizes Letícia Colin e Sophie Charlotte. Bem distante de sua realidade, como o ator gosta. “Embora eu esteja doido para dirigir, quero continuar com meus trabalhos de ator, pois é uma das pro – fissões mais lindas do mundo. Ainda bem que não preciso fazer essa escolha de Sofia.”

“As pessoas estão viciadas em compartilhar sua privacidade, em ter que manter um público fiel como se fosse um patrimônio. Não tenho essa relação de posse”

Tricô Sease, cueca Intimissimi, sapato CNS, meia acervo

Edição de estilo e produção executiva: Ana Elisa Meyer
Direção de arte: David Nefussi
Produção de moda: Kato Pollak e Leo Napolitano
Assistentes de fotografia: Vanessa Gomes e Vitor Cohen
Tratamento de imagem: Fujocka

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