Revista Poder

O PODER PRETO

Tricô e casaco Zegna

Por Amauri Arrais
Fotos Pedro Dimitrow
Styling Cuca Ellias

Depois de elogiar os dotes de Dona Silene, uma mulher negra que vende cocadas, a apresentadora lhe entrega uma bandeja com os doces e pede que ela faça as honras da casa. Rapidamente, um de seus colegas no programa se levanta e anuncia que vai fazer o papel de garçom, dizendo que a convidada “não vai servir ninguém”. A cena, no programa É de Casa, em um dos sábados da Globo, poderia ter passado despercebida, não fosse o apresentador ser Manoel Soares. Nos últimos anos, todas as vezes em que o jornalista de 42 anos intervém para corrigir – sempre com elegância – algum comportamento que revela nosso entranhado racismo, ele invariavelmente vai parar nos assuntos mais comentados das redes. Foi assim também recentemente, quando questionou uma atriz convidada do Encontro, onde estreou na apresentação em julho, pelo uso da expressão “ovelha negra”. Manoel assegura que não deseja carregar o título de principal voz do antirracismo dentro da maior emissora do país, como já foi apontado. “A última coisa que eu quero é ter que falar só sobre a questão racial. Gosto de falar de música, de beleza, de moda, mas não tenho como falar disso enquanto um policial que pisou no pescoço de uma mulher negra é absolvido”, diz, referindo-se à absolvição, em agosto, do PM que, em 2020, agrediu uma comerciante na capital paulista. O apresentador também não permite que sua trajetória fique marcada por fatos de quem sobreviveu ao improvável. Nascido na Boca do Rio, no subúrbio de Salvador, viu a mãe sofrer com a violência do pai antes de fugir com os filhos para São Paulo. Em Porto Alegre, para onde se mudou na adolescência com alguns irmãos em busca de trabalho, dormiu embaixo de um viaduto, época em que seus quase 2 metros de altura o ajudaram a conseguir alguns trocados como segurança de travestis que faziam ponto por ali.

Depois disso, trabalhou vendendo válvula de gás, como zelador, jardineiro e um sem número de atividades até conseguir uma vaga como contínuo na TV Educativa gaúcha, onde sua capacidade inquestionável de comunicação – adquirida nos anos em que a mãe, testemunha de Jeová, o incentivou a ler e a decorar trechos inteiros da Bíblia – o levaram rapidamente para a frente das câmeras.

“GOSTO DE FALAR DE MÚSICA, DE BELEZA, DE MODA, MAS NÃO TENHO COMO FALAR DISSO ENQUANTO UM POLICIAL QUE PISA NO PESCOÇO DE UMA MULHER NEGRA É ABSOLVIDO”


look total Ricardo Almeida, óculos Havaianas

UM HOMEM DE FAMÍLIA

Em vez de discorrer sobre sua vida, Manoel prefere exaltar a história da mãe, Ivanete. Nos anos 1980, para fugir da violência do marido, um conhecido chefe do tráfico de Salvador, ela distribuiu sacolas de supermercado com roupas entre as vizinhas para deixar a casa com os filhos sem chamar a atenção. Mais tarde, o grupo de mulheres se reuniria na rodoviária, de onde a família partiu. Segundo de seis filhos, ele nunca mais viu o pai, assassinado anos mais tarde. Saber onde ele está enterrado e “fechar o ciclo” é um dos seus desejos de vida: “Tento todos os dias me tornar o pai que eu desejava ter”.

O bem-estar da família é a principal preocupação do apresentador. “Fiz um pacto com minha mãe de que iria batalhar com ela para que não enterrássemos nenhum de nós. É isso que eu defino como vitória na vida”, afirma. Os cinco irmãos estão vivos, assim como Dona Ivanete que, aos 62 anos, ganhou dele a primeira casa própria. Manoel também se tornou pai de seis filhos, dois de um relacionamento que teve aos 22 anos, dois enteados e os caçulas Izael e Ezequiel, de 3 e 4 anos, de seu casamento com a executiva social Dinorá Rodrigues, com quem está há 17 anos.

Foi para tentar dar uma vida mais confortável à prole que, mesmo depois de mais de uma década na RBS, afiliada da Globo no Rio Grande do Sul, pensou em pedir demissão e abrir uma franquia de pão de queijo. Foi convencido pelo chefe a não fazer isso e, durante uma participação ao vivo no Encontro, chamou a atenção de Fátima Bernardes. Com a saída da apresentadora da atração, no início do ano, Manoel voltou como coapresentador, ao lado de Patrícia Poeta. A relação com a colega é também outra fonte constante de notícias em sites da cobertura de TV, que veem uma suposta rivalidade entre os dois – o que ele minimiza. “O Brasil tem tantas urgências que seria falta de responsabilidade jornalística se nós perdêssemos tempo dando atenção a pseudorrusgas”, diz. “Claro que a Patrícia e eu temos visões de mundo que se conectam. Senão, não estaríamos trabalhando juntos.”

Os filhos são sua plateia mais exigente, além de fonte permanente de aprendizado: puxam a orelha do pai se ele escorrega em alguma expressão machista ou homofóbica, avaliam seu comportamento em frente às câmeras e nas redes sociais. São eles também que dividem as tarefas em casa, incluindo os cuidados com os dois pequenos, diagnosticados com espectro autista.

Ser a melhor versão de si para eles é, segundo Manoel, uma responsabilidade muito maior do que encarar a audiência diariamente. Mas ele acredita estar cumprindo bem o compromisso que se propôs. “Tenho muito orgulho da minha galera. Eu produzi meus melhores amigos.”

“TENHO FILHOS EXTREMAMENTE CRÍTICOS. SOBREVIVER À GLOBO É FÁCIL. DIFÍCIL É SOBREVIVER A ELES, QUE TÊM UM OLHO AFIADO PARA TUDO”

Tricô e casaco Zegna
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