Revista Poder

Rússia confirma que BRICS lançará moeda lastreada em ouro

Foto 150012487 / Brics © MrIlkin | Dreamstime.com

Na sexta-feira 7, o governo russo confirmou, de acordo com a estatal RT, que o BRICS, liderado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, planeja introduzir uma nova moeda comercial lastreada em ouro. O anúncio oficial será feito durante a cúpula do BRICS em agosto, na África do Sul.

A notícia impulsiona ainda mais a tendência de desdolarização na economia global. Desde meados de 2022, bancos centrais ao redor do mundo têm comprado ouro em um ritmo histórico, buscando diversificar suas reservas longe do dólar americano.

Para muitos analistas, uma moeda lastreada em ouro é a próxima evolução nesse processo. As recentes compras de ouro pela China foram vistas como uma tentativa de conferir credibilidade internacional ao yuan.

Ao mesmo tempo, as tensões entre o governo dos EUA e a Rússia, relacionadas à invasão da Ucrânia, geraram incerteza geopolítica entre algumas nações aliadas à Rússia.

Embora a perspectiva de uma moeda do BRICS lastreada em ouro seja um suporte significativo para o metal precioso, alguns analistas acreditam que levará tempo para que o impacto seja sentido no mercado.

Thorsten Polleit, economista-chefe da Degussa, destacou que, embora o anúncio seja um passo na direção certa, ainda há um longo caminho a percorrer para torná-lo uma realidade.

“À primeira vista, uma nova unidade de transação lastreada em ouro parece uma forma sólida de dinheiro e pode representar um grande desafio para a hegemonia do dólar americano”, comentou ele em um portal de notícias americano.

No entanto, Polleit acrescentou que o ‘’diabo’’ está nos detalhes.

“Para que a nova moeda seja tão sólida quanto o ouro, ela deve ser conversível em ouro sob demanda. Não se sabe se isso é o que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul têm em mente. Utilizar ouro como moeda representaria uma verdadeira mudança de paradigma, e isso poderia levar a uma forte desvalorização de muitas moedas fiduciárias em relação ao metal amarelo, incluindo as moedas fiduciárias dos países do BRICS. Isso também poderia afetar os preços dos bens quando expressos nessas moedas fiduciárias. Seria um impacto significativo no sistema monetário global baseado em moedas fiduciárias. Não se sabe ao certo se é isso que os países do BRICS pretendem alcançar”, ponderou Polleit. Ele acrescentou que outra opção seria os países do BRICS criarem um novo banco que exigiria a retenção de ouro como capital.

“Com base nessa reserva de ouro, o novo banco poderia conceder empréstimos de financiamento aos exportadores e emitir a ‘nova moeda’. Ou então, as exportações do BRICS seriam vendidas em troca da ‘nova moeda’ e/ou ouro”, explicou ele. “Ainda é cedo para chegar a uma conclusão final sobre o que isso trará, mais detalhes são necessários.”

Naeem Aslam, diretor de investimentos da Zaye Capital Markets, afirmou que, embora essa iniciativa possa oferecer suporte de longo prazo para o ouro, o metal precioso ainda enfrenta desafios de curto prazo. Ele acrescentou que, apesar do anúncio, ainda há um longo caminho a percorrer antes que uma moeda lastreada em ouro se torne uma realidade.

“No entanto, isso não significa que seja impossível de se alcançar”, afirmou. “Por enquanto, qualquer notícia positiva adicional sobre o assunto certamente pode beneficiar o preço do ouro, mas, mais importante, os traders agora estão focados nos dados do CPI dos EUA, que serão divulgados na próxima semana.”

Outros analistas permanecem céticos em relação ao anúncio.

“Falar sobre uma moeda lastreada em ouro do BRICS parece apenas ecoar o que já foi dito. Eles não possuem ouro suficiente para lastrear uma moeda de forma significativa”, disse Marc Chandler, diretor-gerente da Bannockburn Global Forex. “Será que não aprendemos nada com a experiência da União Econômica e Monetária Europeia, onde houve uma união monetária sem união fiscal? Isso me deixa profundamente cético.”

Muitos analistas têm especulado sobre a possibilidade de uma nova moeda global que desafie o papel do dólar americano como moeda de reserva mundial. No final de março, Jim O’Neill, ex-economista-chefe do Goldman Sachs, escreveu em um artigo publicado no Global Policy Journal que a dominância do dólar americano está desestabilizando as políticas monetárias globais. Ele acrescentou que uma moeda do BRICS, desafiando a hegemonia do dólar americano, poderia trazer estabilidade à economia global.

No entanto, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, afirmou em abril à CNN que as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, especialmente contra a Rússia, representam um risco para a hegemonia do dólar como moeda de troca internacional.

“Existem riscos muito sérios quando utilizamos sanções financeiras vinculadas ao dólar. Com o tempo, essas ações podem minar a hegemonia da moeda americana, mas essa é uma ferramenta que buscamos usar criteriosamente quando temos o apoio de nossos aliados”, declarou Yellen.

O BRICS tem chamado a atenção de grandes economias, como o presidente francês Emmanuel Macron, que solicitou participar da próxima reunião, mas teve seu pedido rapidamente rejeitado pela Rússia.

Sair da versão mobile