Revista Poder

Veja “Ensaio” de PODER com o ator Sérgio Mamberti, que morreu em São Paulo aos 82 anos

Ator e agente cultural, o homem que deu vida ao Doutor Victor do "Castelo Rá-Tim-Bum" e foi um dos pioneiros do PT estrelou ensaio fotográfico da revista, no começo e 2020; reviva

Sergio Mamberti || Créditos: Maurício Nahas / PODER

Veja reportagem de Dado Abreu e ensaio fotográfico de Maurício Nahas. A reportagem foi publicada em fevereiro de 2020.

Sérgio  Mamberti  é  um  sujeito  em  extinção.  Cortês,  elegante,  empático,  de prosa  leve.  Nasceu  em 1939, meses antes da máquina de morte nazista atacar a Polônia e dar início à maior catástrofe  provocada  pelo  homem  ao  longo  da  história. O  octogenário  ator  era  apenas  um  garotinho  brincando pelas ruas de Santos, litoral paulista, mas ainda guarda reminiscências da Segunda Guerra e dos tempos sombrios que, imaginava-se, não voltariam nunca mais.

“Estou  certo  de  que  retrocedemos.  De  uma  hora  para  outra  parece que voltamos no tempo. Sinto uma enorme tristeza com o que está acontecendo no Brasil e no mundo com tanto discurso de ódio, imposição de ideologias, censura”, lamenta Mamberti. “Trump, Bolsonaro, o florescimento de partidos extremistas de direita na Europa, os conflitos no Oriente Médio. Só me lembro de um período tão ameaçador na época da guerra.”

Com   as   lembranças   do   passado,   Sérgio   Mamberti   está   em  cartaz  com  o  espetáculo O  Ovo  de  Ouro,  do  ator  e  dramaturgo Luccas Papp, que narra o conflito dos sonderkommandos (ou comandos  especiais),  judeus  que  eram  obrigados  a  auxiliar  na  aniquilação de seu próprio povo e, ao mesmo tempo, a ter que conviver  com  o  medo  da  morte.  Contada  em  diferentes  episódios  e tempos,  a  trama  revela  a  vida  de  um  desses sonderkommandos que  sobreviveu  ao  campo  de  concentração.  No  tempo  presente do espetáculo, ele é entrevistado por um jornalista rememorando os fatos aterrorizantes do passado.

“Em  períodos  de  extremismo  é  necessário  recordar  as  atrocidades do Holocausto para que a história não se repita”, ressalta Mamberti,  antes  de  citar  o  escritor  colombiano  Gabriel  García  Márquez: “É  fácil  esquecer  para  quem  tem  memória;  difícil  esquecer  para quem tem coração”.

Sentindo-se com 15 anos, como gosta de dizer, Mamberti está carregado  de  projetos  para  um  ano  de  comemorações.  Além  de  viajar o  país  com O  Ovo  de  Ouro,  planeja  um  monólogo  baseado  na  obra de García Lorca, tem convite para outras peças, está publicando um livro em parceria com o jornalista Dirceu Alves Jr. e será tema de um documentário de Evaldo Mocarzel.

“Também sigo na militância em defesa das liberdades e dos direitos adquiridos.  Essa  energia  que  me  move  com  80  anos  está  presente  e não veste pijama”, diz ele, que trabalhou durante 12 anos no ministério da  Cultura  em  diversos  cargos,  entre  eles  o  de  presidente  da  Funarte (Fundação Nacional de Artes). “A cultura é muitas vezes interpretada como algo supérfluo, como se fossem as belas artes cheias de capricho. Vejo o horizonte da cultura como civilizador e de transformação, porque não há transformação que não seja através da cultura.” E continua: “Estou triste com o momento, mas acredito no legado.Quando você vê um Paulo Freire sendo demonizado, um Milton Santos, a Fernanda Montenegro desrespeitada, Ariano Suassuna, Chico Buarque, Zé Celso Martinez Corrêa, Plínio Marcos e tantos outros… É preciso acreditar nesse legado, só posso pensar assim.”

A  humildade  não  lhe  permitiria,  mas  acrescentemos  ao  nobre  rol  o nome de Sérgio Duarte Mamberti.

Sergio Mamberti || Créditos: Maurício Nahas / PODER

 

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